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Miriam (3)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Maio 3, 2007

Como nada acontecia, Miriam resolveu abrir os olhos. A criatura continuava na sua frente, olhando para Miriam, sua larga cara bovina estampando algo semelhante a um sorriso.
“Eu sei que não tomei banho recentemente, mas não precisa franzir tanto a cara por causa disso.” disse a estranha criatura e soltou uma gostosa risada. Sua voz profunda reverberou pela frágil casa de madeira.
Meio sem jeito por ver que a criatura não queria lhe fazer mal, Miriam sorriu timidamente, tentando mostrar simpatia. Mas a visão dos grandes chifres capturava toda a sua atenção. Percebendo esse embaraço, ele disse:
“Você não deve ter visto muitos minotauros na sua vida”.
“Nenhum, na verdade”, ela disse, lembrando vagamente de livros de histórias de sua infância, com criaturas metade humanas e metade boi.
Espertigando-se, o grande ser fez uma mesura e apresentou-se.
“Meu nome é Eladius e essa é minha casa. Aquele pendurado na árvore espiando é Bim, um pequenino. Não dê atenção a ele, o coitado acredita que conhece essa floresta melhor que eu…”
“E conheço sim, seu grandalhão desajeitado!”
A pequena criatura apareceu por detrás de Eladius sem ser percebido, escutando a conversa atentamente. Ele parecia bem curioso sobre Miriam e suas roupas diferentes.
“É obvio que ela não é daqui, seu bobalhão! Nunca vi calças como essa antes. São azuis!”
O pequenino olhava desconfiado para Miriam. Aquela cena repentinamente pareceu muito engraçada, o grande minotauro com o pequenino por entre suas pernas, olhando para ela. Sem querer, ela começou a rir.
Os dois olharam para ela, Bim emburrado, mas Eladius juntou-se a ela na risada.
“Se você não é daqui, essa deve ser mesmo uma visão engraçada. Eu sei que em outros lugares é raro um minotauro se associar a um pequenino, ainda mais um desconfiado e irritante como esse”.
“Desculpe, não é isso, nem sei porque comecei a rir desse jeito”.
“Rir é bom, pode rir sempre que quiser aqui. Agora, falta você se apresentar, menina”.
“Nossa! Claro! Meu nome é Miriam e não sei como vim parar na sua casa”.
“Achamos você na floresta” disse o pequenino apressadamente. “Eladius insisitiu para que trouxéssemos você até aqui. Ele vive dizendo que a floresta é perigosa para estranhos…”
“Muito obrigado. Mas eu também não sei como fui parar nessa floresta”.
Os dois se entreolharam confusos.
“Perdeu a memória? Não tem problema, pode ficar por aqui o quanto quiser até lembrar!” Disse o grande animal e saiu para a cozinha para terminar de preparar a refeição do dia.
Ele pareceu tão animado e saiu tão rapidamente que Miriam desistiu de contar para ele que ela não tinha perdido a memória, que lembrava de quem era e de onde viera, mas não sabia onde estava nem porque. Seguindo o saltitante Bim, ela se sentou na cozinha apertada e observou Eladius preparar a comida.
O cheiro era muito bom e ela comeu com vontade o que lhe foi oferecido. Satisfeita, agradeceu veementemente a refeição, deixando Eladius envergonhado.
“Não foi nada… obrigado…”
Eladius e Bim pararam um momento, trocando olhares significativos. Enfim, Eladius dirigiu-se para Mirim em um estranho tom sério. Ela estava se acostumando com o bom humor do grande ser…
“Estávamos pensando, eu e Bim. Se vai mesmo ficar por aqui, talvez seja bom aprender algumas coisas sobre a floresta. Caso precise caminhar por ela, vai ser menos perigoso”.
“Além disso, você vai ser mais útil se tiver o mínimo de conhecimento sobre as ervas que usamos. Também posso te apresentar alguns dos animais, eles irão garantir sua segurança.” Bim comentou de forma displicente.
“Isso seria maravilhoso!” Miriam exclamou levantando de um pulo, olhando inconscientemente para a grande árvore dourada no lado de fora da casa. Desde que chegou aquele lugar, ela estava contendo uma vontade irresistível de caminhar pela grande floresta que se estendia para fora das portas da cabana. Era como se algo lá sussurrasse gentilmente seu nome.
Eladius abriu um largo sorriso, satisfeito com o comentário. “Então venha menina, vou te apresentar a vizinhança”.

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