Projeto Blogbook


Meses depois (1)

Publicado em Sem nome definido por Ana em Maio 7, 2007

Quem olhasse para aquela mulher forte com olhos astutos jamais pensaria que seria a mesma Miriam que apareceu próxima a cabana de Eladius alguns meses atrás.
Ela era uma menina fraca e assustada, mas a convivência com o minotauro e o pequenino mudaram radicalmente sua visão de mundo. Agora ela conhecia a floresta em que vivia como a palma de sua mão, caminhava por entre as árvores como se fosse o quintal de sua casa e conhecia cada animal com a um amigo.
Miriam gostava de caminhar pela relva fresca. Era primavera e toda a floresta estava radiante de vida. Cada sentido de seu corpo estava aguçado e atento a tudo ao seu redor e um sentimento de expectativa parecia crescer a cada dia.
Eladius havia ensinado a ela tudo sobre as ervas daquele lugar. Ele havia ensinado como conversar com a plantas e saber o que acontecia na floresta. Ele havia lhe apresentado os espíritos do rio e da montanha e ensinado os segredos da cura. Ela começou a dominar a magia dos elementos também, coisa que surpreendeu e satisfez Eladius enormemente.
Bim, que a princípio olhava para ela com tanta desconfiança, acabou por desenvolver uma profunda amizade com a garota. Fez questão de ensinar tudo o que sabia, apresentou cada animal da região e ensinou a língua dos animais para ela. Também ensinou alguns truques, como a chamar os amigos na hora da necessidade. Foi Bim também que deu Calabui para Miriam, quando ele era pouco mais que um filhote, para que ela cuidasse do pequeno lobo cinzento, que como ela acabou se tornando forte e esperto. Eles estavam sempre juntos e eram como irmãos.
Assim, Miriam aprendeu o melhor de seus amigos. Eles prometeram que ensinariam tudo que ela precisasse para se virar sozinha e falaram sério. Ela sentia que poderia sobreviver facilmente em qualquer floresta daquele mundo estranho e maravilhoso e sentia curiosidade em conhecer outros lugares. Seriam eles tão maravilhosos como aquele que agora chamava de casa?
Aos poucos ela também foi sentindo cada vez menos saudade do lugar de onde viera, até que as lembranças daquele outro mundo gradativamente foram se tornando borrões e ela não se lembrava muito bem de sua antiga vida. Ela agora pertencia aquele lugar e era feliz assim.

Miriam (3)

Publicado em Sem nome definido por Ana em Maio 3, 2007

Como nada acontecia, Miriam resolveu abrir os olhos. A criatura continuava na sua frente, olhando para Miriam, sua larga cara bovina estampando algo semelhante a um sorriso.
“Eu sei que não tomei banho recentemente, mas não precisa franzir tanto a cara por causa disso.” disse a estranha criatura e soltou uma gostosa risada. Sua voz profunda reverberou pela frágil casa de madeira.
Meio sem jeito por ver que a criatura não queria lhe fazer mal, Miriam sorriu timidamente, tentando mostrar simpatia. Mas a visão dos grandes chifres capturava toda a sua atenção. Percebendo esse embaraço, ele disse:
“Você não deve ter visto muitos minotauros na sua vida”.
“Nenhum, na verdade”, ela disse, lembrando vagamente de livros de histórias de sua infância, com criaturas metade humanas e metade boi.
Espertigando-se, o grande ser fez uma mesura e apresentou-se.
“Meu nome é Eladius e essa é minha casa. Aquele pendurado na árvore espiando é Bim, um pequenino. Não dê atenção a ele, o coitado acredita que conhece essa floresta melhor que eu…”
“E conheço sim, seu grandalhão desajeitado!”
A pequena criatura apareceu por detrás de Eladius sem ser percebido, escutando a conversa atentamente. Ele parecia bem curioso sobre Miriam e suas roupas diferentes.
“É obvio que ela não é daqui, seu bobalhão! Nunca vi calças como essa antes. São azuis!”
O pequenino olhava desconfiado para Miriam. Aquela cena repentinamente pareceu muito engraçada, o grande minotauro com o pequenino por entre suas pernas, olhando para ela. Sem querer, ela começou a rir.
Os dois olharam para ela, Bim emburrado, mas Eladius juntou-se a ela na risada.
“Se você não é daqui, essa deve ser mesmo uma visão engraçada. Eu sei que em outros lugares é raro um minotauro se associar a um pequenino, ainda mais um desconfiado e irritante como esse”.
“Desculpe, não é isso, nem sei porque comecei a rir desse jeito”.
“Rir é bom, pode rir sempre que quiser aqui. Agora, falta você se apresentar, menina”.
“Nossa! Claro! Meu nome é Miriam e não sei como vim parar na sua casa”.
“Achamos você na floresta” disse o pequenino apressadamente. “Eladius insisitiu para que trouxéssemos você até aqui. Ele vive dizendo que a floresta é perigosa para estranhos…”
“Muito obrigado. Mas eu também não sei como fui parar nessa floresta”.
Os dois se entreolharam confusos.
“Perdeu a memória? Não tem problema, pode ficar por aqui o quanto quiser até lembrar!” Disse o grande animal e saiu para a cozinha para terminar de preparar a refeição do dia.
Ele pareceu tão animado e saiu tão rapidamente que Miriam desistiu de contar para ele que ela não tinha perdido a memória, que lembrava de quem era e de onde viera, mas não sabia onde estava nem porque. Seguindo o saltitante Bim, ela se sentou na cozinha apertada e observou Eladius preparar a comida.
O cheiro era muito bom e ela comeu com vontade o que lhe foi oferecido. Satisfeita, agradeceu veementemente a refeição, deixando Eladius envergonhado.
“Não foi nada… obrigado…”
Eladius e Bim pararam um momento, trocando olhares significativos. Enfim, Eladius dirigiu-se para Mirim em um estranho tom sério. Ela estava se acostumando com o bom humor do grande ser…
“Estávamos pensando, eu e Bim. Se vai mesmo ficar por aqui, talvez seja bom aprender algumas coisas sobre a floresta. Caso precise caminhar por ela, vai ser menos perigoso”.
“Além disso, você vai ser mais útil se tiver o mínimo de conhecimento sobre as ervas que usamos. Também posso te apresentar alguns dos animais, eles irão garantir sua segurança.” Bim comentou de forma displicente.
“Isso seria maravilhoso!” Miriam exclamou levantando de um pulo, olhando inconscientemente para a grande árvore dourada no lado de fora da casa. Desde que chegou aquele lugar, ela estava contendo uma vontade irresistível de caminhar pela grande floresta que se estendia para fora das portas da cabana. Era como se algo lá sussurrasse gentilmente seu nome.
Eladius abriu um largo sorriso, satisfeito com o comentário. “Então venha menina, vou te apresentar a vizinhança”.