Carmem (2)
Nesse momento o lado racional de Carmem deu um grito dentro de sua cabeça.
“Magia? Essa velha deve estar doida! E que diabos de lugar é Antina?”
A expressão da mulher mudou repentinamente. Olhando fixamente para Carmem, ela perguntou.
“Não acredita em mim? Pelo jeito você é algum tipo de sabe-tudo que acha que conhece esse lugar melhor que eu.”
“Droga, ela deve ter percebido minha cara de espanto…” Carmem pensou.
“Eu não disse nada, moça, mas é que de onde eu venho não tem magia nenhuma passeando por ai…”
“Ha! Uma espertinha! Então olhe pela janela, menina, e veja por você mesma.”
Ela voltou sua atenção para a bagunçada mesa de madeira cheia de potes e frascos e deixou Carmem por si só.
Olhando ao redor, ela percebeu por entre as prateleiras uma janela entreaberta no canto da sala. Somente um pequeno fio de luz entrava por ali, não era possível dizer se era dia ou noite, muito menos o que havia no outro lado.
Hesitante, Carmem se dirigiu para lá. Ela abriu caminho por entre baús e caixas estranhas, algumas velas espalhadas pelo chão, um amontoado de velhos pergaminhos acumulando poeira e teias de aranha até que chegou em frente a janela estreita e comprida que se estendia por quase toda a parede.
Ela olhou para trás, talvez para ter certeza que a estranha e fascinante sala continuava no mesmo lugar, e encarou a janela diante de si. Respirando fundo, ela segurou o pedaço de madeira apodrecida que um dia foi uma veneziana e abriu tudo de uma vez.
Do lado de fora, uma extensa cidade se abria à sua visão, com altas torres de pedra e casas baixas com janelas iluminadas por dentro, indicando a presença de pessoas em seu interior. Ela se encontrava em uma das torres mais baixas que eram abundantes no seu lado da cidade. Ao longe, uma floresta com árvores frondosas e uma cadeia de montanhas recobertas de gelo perfazia o horizonte.
Era uma visão de tirar o fôlego, mas Carmem não viu nada disso. Toda a sua atenção foi imediatamente tomada por uma torre em frente a sua. Seria uma torre exatamente igual a que estava não fosse por um detalhe: no telhado, um animal semelhante a um grande lagarto com asas parecia descansar enquanto um homem na janela conversava com ele. Paralizada pelo medo e pelo fascínio, Carmem ficou encarando a cena longamente, até que os dois tomaram consciência dela. O dragão piscou e olhou para ela enquanto o homem acenava amigavelmente. Carmem fechou a janela num estrondo e correu para o lado da velha.
“Tem um dragão lá fora!”
“Não se preocupe, menina, dragões são seres mágicos, mas magia não existe…” A velha respondeu com um toque de ironia na voz.
“Ora, ele está lá! Como pode?”
“Em Antina, há magia em todos os lugares. Agora acredita?”
Se deixando cair no banco mais próximo, Carmem assentiu com a cabeça, os olhos distantes em pensamentos.
Virando-se para Carmem com um olhar compadecido no rosto, Lidia disse.
“Entendo, deve ser difícil para você compreender. Eu não sei de onde você veio mocinha, mas apareceu no meu laboratório por algum motivo. Eu estava mesmo pensando em ter um aprendiz, alguém a quem possa passar o que sei. Estou ficando velha, a idade nos faz pensar nesse tipo de coisa…” Lídia olhou Carmem por algum tempo, talvez avaliando a menina.
“Então que tal começarmos denovo? Meu nome é Lídia, maga de Antina.”