Paulo (1)
As coisas não eram fáceis para Paulo.
Quando tinha quatro anos, seu pai abandonou a família. Sua mãe teve que arranjar dois empregos para conseguir pagar as contas e ficava muito pouco em casa. Assim, desde muito pequeno Paulo aprendeu a se virar sozinho.
Mas agora isso era passado. Ele balançou a cabeça afastando essas lembranças tristes e continuou a consertar a TV. Era isso que ele fazia da vida, consertava coisas. E ele era muito bom nisso.
Aquele dia Paulo saiu bem tarde da oficina, pois tinha muito trabalho a terminar. Quando fechou a grade da pequena loja em que havia instalado seu negócio, a lua já estava alta no céu.
Apesar de ser inverno, a noite estava agradável. Depois de muitos dias de chuva, o tempo havia finalmente melhorado e a noite estava clara. Ao chegar em casa, Paulo abriu a janela da sala de seu pequeno apartamento e jantou admirando aquela bela lua prateada.
Resolveu ligar a televisão para relaxar, mas o cansaço era grande e logo ele estava dormindo. Em breve, a televisão não passava de uma tela cinza cheia de chiaços.
Ele lembra de ter levantado e desligado a TV e ido até a janela de onde ele via a cidade lá embaixo, mas ela parecia distante e inatingível. Ele lembra da sensação de tontura e vertigem e de cair no chão da sua sala. Quando olhou novamente pela janela, a cidade que via era bem diferente, escura e monumental, toda de pedra, com fogueiras acesas ao longe. Sua casa também havia mudado, agora ele se encontrava em um quarto escuro e úmido, com uma grande porta de madeira pesada.
Pelo canto do olho ele percebeu algo se movendo no recinto e antes que pudesse reagir, sentiu uma dor aguda no pescoço e caiu inconsciente.