Projeto Blogbook


Meses depois (2)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Junho 15, 2007

Joel caminhava calmamente pelos jardins do grande Templo. Era uma manhã luminosa e calma, como ele tanto apreciava.
Em sua caminhada, Joel passou por uma grande árvore de folhas muito verdes, radiante pela primavera que se iniciava. Era uma velha conhecida, que Joel visitava diariamente como a uma amiga. Foi aqui que ele acordou como num sonho, meses atrás.
Passando a mão pela casca rugosa da grande árvore, ele se lembrou dos ultimos meses, em que foi apresentado a conhecimentos nunca antes imaginados por ele. Apesar da pouca idade, Joel se demonstrou um aprendiz voraz desse conhecimento, aprendendo rapidamente os preceitos daquela religião.
Claro que nada disso teria acontecido sem a visão. A imagem brilhante que queimou sua alma como fogo era presença constante em sua vida agora e guiava todos os seus passos. Ele acreditava na bondade e poder de Nithil, a grande deusa da cura e da vida.
Em toda a sua vida anterior ele havia sido forçado a acreditar em algo que para ele parecia irreal e distante. Ele jamais conseguiu demonstrar a fé que seus pais possuiam e se sentia deslocado por causa disso. Agora, tudo parecia diferente. Ele sentia a presença da deusa ao seu redor e dentro dele, era uma presença reconfortante e que lhe dava forças para realizar qualquer coisa. Para ele, essa fé agora era a vida.
Os mais velhos diziam que ele havia sido tocado pela deusa, uma benção oferecida a poucos. É verdade que no Templo haviam muitos devotos, mas poucos haviam sentido a deusa verdadeiramente. Joel se sentia abençoado por ter sido um dos escolhidos.
Joel aprendia tudo rapidamente, motivado pela fé e pela alegria dessa nova vida. Ele se sentia realizado, mas algo faltava.
Ao olhar para fora das paredes do Templo, ele via as desavenças entre o povo, a fome, a doença, as guerras. Sentia que algo deveria ser feito para diminuir o sofrimento daquele povo trabalhador. Maira, sea professora, o dissuadia constantemente, dizendo que ele ainda tinha muito o que aprender, mas mesmo ela sabi que não conseguiria segurar aquele espírito forte por muito tempo. Ela ensinava a ele tudo que sabia na esperança de prepará-lo para o que pudesse encontrar no futuro.
A manhã avançava e Joel se dirigiu à sala de estudos, onde Maira o esperava. Ele olhou por sobre o ombro antes de entrar na sala, uma ultima visão da grande árvore e os muros do Templo ao fundo. Seus olhos brilharam por um momento no sol da manhã e ele sentiu a chegada de mudanças. Virando-se para cumprimentar sua professora, Joel pensou o que o dia de amanhã traria.

Meses depois (1)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Maio 7, 2007

Quem olhasse para aquela mulher forte com olhos astutos jamais pensaria que seria a mesma Miriam que apareceu próxima a cabana de Eladius alguns meses atrás.
Ela era uma menina fraca e assustada, mas a convivência com o minotauro e o pequenino mudaram radicalmente sua visão de mundo. Agora ela conhecia a floresta em que vivia como a palma de sua mão, caminhava por entre as árvores como se fosse o quintal de sua casa e conhecia cada animal com a um amigo.
Miriam gostava de caminhar pela relva fresca. Era primavera e toda a floresta estava radiante de vida. Cada sentido de seu corpo estava aguçado e atento a tudo ao seu redor e um sentimento de expectativa parecia crescer a cada dia.
Eladius havia ensinado a ela tudo sobre as ervas daquele lugar. Ele havia ensinado como conversar com a plantas e saber o que acontecia na floresta. Ele havia lhe apresentado os espíritos do rio e da montanha e ensinado os segredos da cura. Ela começou a dominar a magia dos elementos também, coisa que surpreendeu e satisfez Eladius enormemente.
Bim, que a princípio olhava para ela com tanta desconfiança, acabou por desenvolver uma profunda amizade com a garota. Fez questão de ensinar tudo o que sabia, apresentou cada animal da região e ensinou a língua dos animais para ela. Também ensinou alguns truques, como a chamar os amigos na hora da necessidade. Foi Bim também que deu Calabui para Miriam, quando ele era pouco mais que um filhote, para que ela cuidasse do pequeno lobo cinzento, que como ela acabou se tornando forte e esperto. Eles estavam sempre juntos e eram como irmãos.
Assim, Miriam aprendeu o melhor de seus amigos. Eles prometeram que ensinariam tudo que ela precisasse para se virar sozinha e falaram sério. Ela sentia que poderia sobreviver facilmente em qualquer floresta daquele mundo estranho e maravilhoso e sentia curiosidade em conhecer outros lugares. Seriam eles tão maravilhosos como aquele que agora chamava de casa?
Aos poucos ela também foi sentindo cada vez menos saudade do lugar de onde viera, até que as lembranças daquele outro mundo gradativamente foram se tornando borrões e ela não se lembrava muito bem de sua antiga vida. Ela agora pertencia aquele lugar e era feliz assim.

Miriam (3)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Maio 3, 2007

Como nada acontecia, Miriam resolveu abrir os olhos. A criatura continuava na sua frente, olhando para Miriam, sua larga cara bovina estampando algo semelhante a um sorriso.
“Eu sei que não tomei banho recentemente, mas não precisa franzir tanto a cara por causa disso.” disse a estranha criatura e soltou uma gostosa risada. Sua voz profunda reverberou pela frágil casa de madeira.
Meio sem jeito por ver que a criatura não queria lhe fazer mal, Miriam sorriu timidamente, tentando mostrar simpatia. Mas a visão dos grandes chifres capturava toda a sua atenção. Percebendo esse embaraço, ele disse:
“Você não deve ter visto muitos minotauros na sua vida”.
“Nenhum, na verdade”, ela disse, lembrando vagamente de livros de histórias de sua infância, com criaturas metade humanas e metade boi.
Espertigando-se, o grande ser fez uma mesura e apresentou-se.
“Meu nome é Eladius e essa é minha casa. Aquele pendurado na árvore espiando é Bim, um pequenino. Não dê atenção a ele, o coitado acredita que conhece essa floresta melhor que eu…”
“E conheço sim, seu grandalhão desajeitado!”
A pequena criatura apareceu por detrás de Eladius sem ser percebido, escutando a conversa atentamente. Ele parecia bem curioso sobre Miriam e suas roupas diferentes.
“É obvio que ela não é daqui, seu bobalhão! Nunca vi calças como essa antes. São azuis!”
O pequenino olhava desconfiado para Miriam. Aquela cena repentinamente pareceu muito engraçada, o grande minotauro com o pequenino por entre suas pernas, olhando para ela. Sem querer, ela começou a rir.
Os dois olharam para ela, Bim emburrado, mas Eladius juntou-se a ela na risada.
“Se você não é daqui, essa deve ser mesmo uma visão engraçada. Eu sei que em outros lugares é raro um minotauro se associar a um pequenino, ainda mais um desconfiado e irritante como esse”.
“Desculpe, não é isso, nem sei porque comecei a rir desse jeito”.
“Rir é bom, pode rir sempre que quiser aqui. Agora, falta você se apresentar, menina”.
“Nossa! Claro! Meu nome é Miriam e não sei como vim parar na sua casa”.
“Achamos você na floresta” disse o pequenino apressadamente. “Eladius insisitiu para que trouxéssemos você até aqui. Ele vive dizendo que a floresta é perigosa para estranhos…”
“Muito obrigado. Mas eu também não sei como fui parar nessa floresta”.
Os dois se entreolharam confusos.
“Perdeu a memória? Não tem problema, pode ficar por aqui o quanto quiser até lembrar!” Disse o grande animal e saiu para a cozinha para terminar de preparar a refeição do dia.
Ele pareceu tão animado e saiu tão rapidamente que Miriam desistiu de contar para ele que ela não tinha perdido a memória, que lembrava de quem era e de onde viera, mas não sabia onde estava nem porque. Seguindo o saltitante Bim, ela se sentou na cozinha apertada e observou Eladius preparar a comida.
O cheiro era muito bom e ela comeu com vontade o que lhe foi oferecido. Satisfeita, agradeceu veementemente a refeição, deixando Eladius envergonhado.
“Não foi nada… obrigado…”
Eladius e Bim pararam um momento, trocando olhares significativos. Enfim, Eladius dirigiu-se para Mirim em um estranho tom sério. Ela estava se acostumando com o bom humor do grande ser…
“Estávamos pensando, eu e Bim. Se vai mesmo ficar por aqui, talvez seja bom aprender algumas coisas sobre a floresta. Caso precise caminhar por ela, vai ser menos perigoso”.
“Além disso, você vai ser mais útil se tiver o mínimo de conhecimento sobre as ervas que usamos. Também posso te apresentar alguns dos animais, eles irão garantir sua segurança.” Bim comentou de forma displicente.
“Isso seria maravilhoso!” Miriam exclamou levantando de um pulo, olhando inconscientemente para a grande árvore dourada no lado de fora da casa. Desde que chegou aquele lugar, ela estava contendo uma vontade irresistível de caminhar pela grande floresta que se estendia para fora das portas da cabana. Era como se algo lá sussurrasse gentilmente seu nome.
Eladius abriu um largo sorriso, satisfeito com o comentário. “Então venha menina, vou te apresentar a vizinhança”.

Carmem (2)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Abril 25, 2007

Nesse momento o lado racional de Carmem deu um grito dentro de sua cabeça.
“Magia? Essa velha deve estar doida! E que diabos de lugar é Antina?”
A expressão da mulher mudou repentinamente. Olhando fixamente para Carmem, ela perguntou.
“Não acredita em mim? Pelo jeito você é algum tipo de sabe-tudo que acha que conhece esse lugar melhor que eu.”
“Droga, ela deve ter percebido minha cara de espanto…” Carmem pensou.
“Eu não disse nada, moça, mas é que de onde eu venho não tem magia nenhuma passeando por ai…”
“Ha! Uma espertinha! Então olhe pela janela, menina, e veja por você mesma.”
Ela voltou sua atenção para a bagunçada mesa de madeira cheia de potes e frascos e deixou Carmem por si só.
Olhando ao redor, ela percebeu por entre as prateleiras uma janela entreaberta no canto da sala. Somente um pequeno fio de luz entrava por ali, não era possível dizer se era dia ou noite, muito menos o que havia no outro lado.
Hesitante, Carmem se dirigiu para lá. Ela abriu caminho por entre baús e caixas estranhas, algumas velas espalhadas pelo chão, um amontoado de velhos pergaminhos acumulando poeira e teias de aranha até que chegou em frente a janela estreita e comprida que se estendia por quase toda a parede.
Ela olhou para trás, talvez para ter certeza que a estranha e fascinante sala continuava no mesmo lugar, e encarou a janela diante de si. Respirando fundo, ela segurou o pedaço de madeira apodrecida que um dia foi uma veneziana e abriu tudo de uma vez.
Do lado de fora, uma extensa cidade se abria à sua visão, com altas torres de pedra e casas baixas com janelas iluminadas por dentro, indicando a presença de pessoas em seu interior. Ela se encontrava em uma das torres mais baixas que eram abundantes no seu lado da cidade. Ao longe, uma floresta com árvores frondosas e uma cadeia de montanhas recobertas de gelo perfazia o horizonte.
Era uma visão de tirar o fôlego, mas Carmem não viu nada disso. Toda a sua atenção foi imediatamente tomada por uma torre em frente a sua. Seria uma torre exatamente igual a que estava não fosse por um detalhe: no telhado, um animal semelhante a um grande lagarto com asas parecia descansar enquanto um homem na janela conversava com ele. Paralizada pelo medo e pelo fascínio, Carmem ficou encarando a cena longamente, até que os dois tomaram consciência dela. O dragão piscou e olhou para ela enquanto o homem acenava amigavelmente. Carmem fechou a janela num estrondo e correu para o lado da velha.
“Tem um dragão lá fora!”
“Não se preocupe, menina, dragões são seres mágicos, mas magia não existe…” A velha respondeu com um toque de ironia na voz.
“Ora, ele está lá! Como pode?”
“Em Antina, há magia em todos os lugares. Agora acredita?”
Se deixando cair no banco mais próximo, Carmem assentiu com a cabeça, os olhos distantes em pensamentos.
Virando-se para Carmem com um olhar compadecido no rosto, Lidia disse.
“Entendo, deve ser difícil para você compreender. Eu não sei de onde você veio mocinha, mas apareceu no meu laboratório por algum motivo. Eu estava mesmo pensando em ter um aprendiz, alguém a quem possa passar o que sei. Estou ficando velha, a idade nos faz pensar nesse tipo de coisa…” Lídia olhou Carmem por algum tempo, talvez avaliando a menina.
“Então que tal começarmos denovo? Meu nome é Lídia, maga de Antina.”

Carmem (1)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Abril 23, 2007

Em toda turma de escola sempre existe aquela pessoa que se dedica totalmente aos estudos, deixando todas as outras coisas de lado. Carmem era desse tipo.
Ela sempre foi muito estudiosa e a melhor aluna da turma, se destacando nas mais diferentes matérias. Era citada por todos os professores como um exemplo a ser seguido por todos e realizava além disso várias atividades extra-curriculares de pesquisa.
Mas a verdade é que Carmem era uma pessoa muito solitária.
Sua grande timidez acabou se transformando em reclusão e ela encontrava nos estudos uma forma de escapar dessa solitária realidade. Quando não estava estudando, Carmem se entretia com seus livros, que devorava diariamente. Livros de todos os tipos preenchiam cada espaço livre de seu quarto, mas os seus preferidos eram os de fantasia. Com eles, ela entrava num mundo mágico totalmente dela, que tornava sua vida mais divertida.
Até mesmo depois de sair do colégio e entrar na universidade de bioquímica, ela continuou solitária e alheia aos eventos sociais que aconteciam ao seu redor. Ela era ainda a melhor aluna e se acostumara tanto a seu mundo que manteve-se distante de todos.
Talvez por isso, enquanto estava deitada na cama macia daquele quarto estranho e encantador ela pensou “ninguém vai notar minha falta mesmo. Acho que vou ficar por aqui”.
Naquele dia ela havia ficado até mais tarde no laboratório de química da faculdade. A prova era na manhã seguinte e ela queria ter certeza que sabia cada reação a ser feita perfeitamente. A medida que o tempo passava, ela fazia cada experimento planejado sem erro ou receio, enchendo o ar com odores e fumaças coloridas. Talvez tenham sido os reagentes misturados, mas o fato é que em breve toda a sala começou a assumir uma coloração azulada. Concentrada como estava, ela nem percebeu a sutil mudança no ambiente. Somente quando ouviu uma expressão de espanto ela tomou consciência da nova realidade que se abria.
As bancadas de concreto haviam sumido e dado lugar a uma ampla mesa de madeira escura e antiga, cheia de artefatos e equipamentos bem diferentes daqueles do laboratório de química. Em suas mãos, ela tinha um pote de barro e dentro dele uma substância parecida com água soltava uma fumaça prateada.
“Lindo efeito! Mas de onde você apareceu, mocinha?”
Do outro lado da mesa, uma mulher de aparência idosa olhava fixamente para Carmem, com um sorriso encantado no rosto. Carmem percebeu que ela estava com um pote igual em suas mãos, mas a substância era amarelada e soltava uma fumaça dourada.
“Eu não sei! eu estava no laboratório e de repente estava aqui.”
“Ah! Uma alquimista?”
“Não, não é isso…”
Carmem olhava confusa para os vinúmeros potes cheios de coisas estranhas que preenchiam várias prateleiras ao redor da sala.
“Como assim? Somente um alquimista conseguiria um efeito tão perfeito numa poção de invocação! Como é seu nome, menina?”
“Carmem… e a senhora?”
“Meu nome é Lidia. Essa é minha casa, esse é meu laboratório.”
“Desculpe, dona Lidia, eu não sei como vim parar aqui.”
Voltando sua atenção para o pote em suas mãos, Lídia resmungou: “Já que está aqui mesmo, então me alcance aquele pote a sua direita que tenho que terminar isso ainda hoje…”
Vendo um grande pote de vidro opaco ao seu lado, Carmem prontamente levou-o até a velha senhora. Ela abriu a tampa e pegou de dentro dele algo viscoso que parecia muito com pele de algum animal. Fascinada por tudo que acontecia, Carmem não se moveu e observou atentamente tudo que a mulher fazia.
“Você parece ter muito interesse no que eu faço para não conhecer magia..”
Sem aviso, uma grande nuvem dourada subiu do pote e encima da mesa apareceu uma pequena criatura, que para Carmem parecia muito com a estátua metálica de um pequeno lagarto.
“Vá, me traga o que desejo!” Lídia ordenou.
A criaturinha se moveu rapidamente e sumiu em meio a bagunça da sala.
“Agora, vamos dar uma boa olhada em você… Então, não sabe onde está nem como veio parar aqui. Pelo jeito gosta de magia.”
“Eu nem sabia que isso existia, dona.”
Soltando uma gargalhada de gelar os nervos, Lidia olhou fixamente para Carmem.
“Essa é Antina. Aqui tem magia em todos os lugares.”

Luiz (2)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Abril 20, 2007

Luiz acordou em meio a uma grande confusão de pessoas e sons. Olhando ao redor, ele percebeu estar num tipo de maca, em meio a muitas barracas e pessoas correndo por todos os lados.
“Ah! Finalmente acordou! Afinal, o que você estava fazendo no meio do campo de batalha?”
Luiz olhou para o lado, onde um homem forte, porém pequeno, com uma longa barba castanha, estava sentado bebendo de uma caneca de madeira escura.
“Campo de batalha? Eu.. não sei…”
“A pancada deve ter sido forte, melhor você descançar um pouco e então vemos o que fazemos com você”
O homem levantou e se afastou até uma barraca cheia de fogueiras e um homem forjando espadas. Luiz viu enquanto ele mostrava uma grande espada suja de sangue ao ferreiro e comentava alguma coisa sobre ela.
Recostando a cabeça novamente no chão duro, Luiz demorou a perceber o que tinha acabado de ver. “Espadas?”.
Levantando o mais rapidamente que pode, ele correu em direção ao homem. Agora que estava em pé, pode perceber como ele era baixo, bem mais baixo que um homem comum…
“Então resolveu levantar! Já que desistiu do descanço, então pode vir comigo. Como você se chama?”
“Luiz.”
“Luiz? Que nome mais estranho… Bem, Luiz, foi muita srte você estar vivo depois da pancada que levou daquele orc. Os deuses devem gostar de você.”
“Orc? Como assim um orc? É algum tipo de gíria?”
“Não entendo nada dessa tal Gíria, mas com certeza era um orc bem grande. O meu nome é Gilian machado de prata.”
Vendo a expressão de espanto na cara de Luiz, Gilian comentou: “Caso você não saiba, eu sou um anão.”
A cara de espanto de Luiz só aumentou diante dessa explicação, o que fez Gilian demonstrar uma certa irritação no olhar.
Enquanto caminhavam, foram lentamente se dirigindo até uma grande cabana no canto do acampamento. Era uma cabana simples, sem cores, mas maior que todas as outras.
Levantando as peles que serviam de porta, Luiz viu uma mesa baixa de madeira e muitos homens sentados ao redor dela, pareciam preocupados e discutiam sobre algo que estava em cima da mesa.
“Com licença, senhor, trouxe nosso convidado sortudo, como pedido.”
“Gilian! Entre por favor!”
Um homem alto e imponente levantou-se da mesa e dirigiu-se a eles. Sua expressão era cansada e preocupada, mas os recebeu com cordialidade.
“Então esse é o visitante estranho. Foi muita sorte Gilian ter encontrado você antes dos orcs em meio à batalha! Como se chama?”
“Luiz, senhor.”
“Bem, Luiz, de onde você vem?”
“Errr… de longe, pelo jeito bem longe daqui…” Ele respondeu olhando ao redor.
“Hum… você é forte. Prova disso é que resistiu ao ataque do orc muito bem, mesmo sem proteção alguma.” O homem coçava a longa barba enquanto pensava.
“Gilian, a quanto tempo você não tem um aprendiz?”
“Cerca de cinquanta anos, senhor…”
“Perfeito! Acaba de ganhar um novo pupilo! Espero vê-lo em ação na batalha daqui a alguns meses.”
Luiz demorou a processar essa informação. Olhou do homem para o anão, confuso. “Aprendiz? De que?”
Gilian olhou para ele com uma cara meio carrancuda, fez uma breve reverência ao homem e saiu da barraca arrastando o confuso Luiz atrás de si.
“Parece que tenho que tornar você um guerreiro, rapaz. Melhor começarmos logo.”

Luiz (1)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Abril 16, 2007

Luiz sempre foi uma pessoa muito controlada. Apesar de sua aparência intimidadora, não gostava de se meter em confusão. As poucas vezes em que teve que efetivamente brigar com alguém, foi para defender um amigo ou para defender a si mesmo.
Apesar de seu comportamento pacato, a confusão sempre insistiu em correr atrás dele. Parece que muito pouca gente conseguia olhar para ele sem provocá-lo ou ficar assustado. Luiz era um rapaz grande, bem maior que a média e os exercícios que sempre fez ao longo dos anos lhe ajudaram a ter um físico poderoso. Assim, Luiz tinha poucos amigos, mas isso fez com que ele aprendesse a valorizar muito cada um deles.
Assim que terminou a escola, ele decidiu não ir para a faculdade. Sua família não era pobre, mas não tinha dinheiro para pagar uma faculdade particular. Ele tinha que trabalhar para ajudar em casa, então não tinha tempo para estudar para um vestibular mais concorrido. Assim, ele decidiu continuar trabalhando e juntar dinheiro.
Com seu tamanho, não foi dificil para ele arranjar logo um trabalho como segurança de casas noturnas. As vezes ele tinha que encarar alguma confusão, mas normalmente as coisas eram calmas e o emprego pagava bem.
Luiz arranjou emprego num dos mais badalados bares da cidade, um lugar cheio de gente rica e poderosa. Algumas noites eram turbulentas, mas ele sempre conseguia aplacar as brigas e restaurar a paz no local.
Naquela noite de quarta-feira a festa prometia ser tranquila. Alguns convidados estavam na mesa do canto e a pista estava bem vazia. A calmaria fez Luiz relaxar e se distrair um pouco. Porém, a calmaria não dura para sempre. Um barulho do lado de fora chamou a atenção de todos. A porta do bar foi escancarada por um chute violento e em poucos segundos o local foi invadido por uma turba de pessoas mal encaradas, se espalhando e fazendo arruaça. Isso nunca havia acontecido antes, mas os seguranças se agilizaram prontamente, pedindo que os novos visitantes se comportassem, o que fez a confusão explodir totalmente. Sem nenhum aviso, pessoas começaram a brigar pelo bar e garrafas voavam para todos os lados.
A primeira reação de Luiz foi procurar pelos clientes que estavam ali antes, na tentativa de protegê-los da confusão que se alastrava. Ele sentiu pessoas tentando atacá-lo, mas sempre se desviava. Finalmente ele alcançou a mesa ao fundo onde duas mulheres tentavam se proteger, assustadas.
“Venham comigo!”, ele disse.
Uma delas arregalou os olhos e gritou, apontando para suas costas.
Tudo que ele sentiu foi a batida forte na cabeça e mundo sumindo lentamente…

Paulo (2)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Abril 9, 2007

Tudo parecia confuso para Paulo. Ele acordou com uma tremenda dor de cabeça somente para se descobrir em meio a uma acalorada discussão.
Ele estava deitado no chão frio e sujo de uma sala escura e abafada, com as mãos amarradas. Ao seu redor, um pequeno grupo de pessoas que ele nunca havia visto antes estava discutindo sobre ele. Pelo que ele podia entender da conversa, as coisas não estavam muito boas.
“Ele é um espião! Provavelmente um daqueles cães da guilda estrela! Devemos acabar logo com ele.” Disse um homem alto e magro no canto.
“Isso pode ser verdade, mas ele burlou nossas defesas e entrou no prédio. Ninguém da guilda estrela jamais conseguiu isso. Ele merece ser ouvido por Loi.”
“Não importa! Um espião deve ser punido com a morte!”
“Ora, Alis, tanto ódio somente porque ele passou pela sua guarda?”
Todos na sala ficaram em silêncio diante dessa palavras. Vermelho de raiva, o homem que reclamava se calou, baixando os olhos em frustração. Na porta, um homem forte com um rosto sereno e sábio, olhava ao redor com interesse. Paulo sentiu aqueles olhos examinarem sua alma até que finalmente o homem sorriu e mandou que o soltassem.
“Mas, Loi, ele é um espião!!!”
“Isso cabe a mim decidir”
Mais uma vez todos se calaram, apesar de Paulo perceber os olhos cheios de ódio de algumas pessoas naquela sala. Existia um equilíbrio ali, mas era frágil como pisar em ovos.
Loi deu a mão para Paulo se levantar. Ele esfregou os punhos machucados pela corda e cumprimentou o homem. Loi deu um ligeiro sorriso e convidou Paulo a sentar na mesa perto da janela. A sala aos poucos foi esvaziando até que só sobraram os dois e um outro que se postou ao lado da porta, parecendo muito interessado no corredor.
“Qual seu nome, rapaz?”
“Paulo, senhor”
“Você sabe onde está, Paulo?”
Paulo olhou ao redor confuso. Percebendo isso, Loi continuou a falar.
“Você está na guilda cinza. Já ouviu falar dela?”
O olhar de Paulo dizia tudo. Suspirando, Loi pediu uma bebida e pensou “Vai ser uma longa conversa…”

O Golpe – Parte 2 (Nova)

Publicado em O Golpe por tiagobarao no / na Abril 3, 2007

Há sessenta anos atrás o mundo era outro. As pessoas ainda se divertiam com cinemas, liam livros em papel, sujavam o mundo de todas as maneiras possíveis e o mais importante de tudo, as pessoas tinham amigos. Amigos fieis, amigos confiáveis, amigos que acreditavam. Acreditavam muito. Hoje eu entendo que eles acreditavam demais. Os meus amigos foram as pessoas que um dia viram a se tornar a Elite que iria realizar as ações mais importantes para as mudanças radicais que teriam que vir. Cada uma dessas pessoas era uma pessoa única, com as suas próprias aspirações, seus próprios talentos e seus próprios objetivos. Mas todos essas aspirações, talentos e objetivos se encaixavam harmoniosamente com os meus planos. Nunca soube ao certo se foram eles que se encaixavam aos planos, ou os planos que foram feitos pensando neles.
Todos eles acreditavam que alguma coisa deveria ser feita. Todos eles viam a necessidade de mudança nas coisas. Quando eu apresentei um esboço dos planos, eles o aceitaram com entusiasmo e com fé. Pois fé era um sentimento necessário para que os planos fossem seguidos. Nunca tivemos certeza de nada, até quando o fim chegou, mas lá, a certeza já não era mais necessária.
Entre os meus amigos, existia uma mulher, que já era o meu maior apoio e o meu maior incentivo para as mudanças. Ela merecia viver em um lugar melhor e isso foi uma das coisas que fez eu me decidir pelas mudanças. Ela seria o coração de todos os meus planos, inclusive da “Grande Diretiva”. Mas como o coração é instável e permeado de emoções, foi ela a maior oposição no objetivo final e a minha maior fonte de arrependimento. Se eu soubesse todas as consequências não teria nem começado o plano. Mas não foi assim que aconteceu e os planos começaram a ser detalhados. A partir da do detalhamento dos objetivos de cada plano, foi criada a “Grande Diretiva”, um documento aonde estariam listados todos os objetivos, mas que agora só listava um. Dinheiro.

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Paulo (1)

Publicado em Sem nome definido por Ana no / na Abril 2, 2007

As coisas não eram fáceis para Paulo.
Quando tinha quatro anos, seu pai abandonou a família. Sua mãe teve que arranjar dois empregos para conseguir pagar as contas e ficava muito pouco em casa. Assim, desde muito pequeno Paulo aprendeu a se virar sozinho.
Mas agora isso era passado. Ele balançou a cabeça afastando essas lembranças tristes e continuou a consertar a TV. Era isso que ele fazia da vida, consertava coisas. E ele era muito bom nisso.
Aquele dia Paulo saiu bem tarde da oficina, pois tinha muito trabalho a terminar. Quando fechou a grade da pequena loja em que havia instalado seu negócio, a lua já estava alta no céu.
Apesar de ser inverno, a noite estava agradável. Depois de muitos dias de chuva, o tempo havia finalmente melhorado e a noite estava clara. Ao chegar em casa, Paulo abriu a janela da sala de seu pequeno apartamento e jantou admirando aquela bela lua prateada.
Resolveu ligar a televisão para relaxar, mas o cansaço era grande e logo ele estava dormindo. Em breve, a televisão não passava de uma tela cinza cheia de chiaços.
Ele lembra de ter levantado e desligado a TV e ido até a janela de onde ele via a cidade lá embaixo, mas ela parecia distante e inatingível. Ele lembra da sensação de tontura e vertigem e de cair no chão da sua sala. Quando olhou novamente pela janela, a cidade que via era bem diferente, escura e monumental, toda de pedra, com fogueiras acesas ao longe. Sua casa também havia mudado, agora ele se encontrava em um quarto escuro e úmido, com uma grande porta de madeira pesada.
Pelo canto do olho ele percebeu algo se movendo no recinto e antes que pudesse reagir, sentiu uma dor aguda no pescoço e caiu inconsciente.

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